GEOGRAFIA DA POPULAÇÃO
GEOGRAFIA DA POPULAÇÃO
Para o estudo da população, é essencial que seja
realizada uma análise estatística acompanhada das características históricas e
geográficas das sociedades existentes no planeta. Podemos iniciar esta análise
com uma pergunta: Quais são as características gerais da população mundial? A
resposta para esta pergunta será respondida ao longo deste capítulo.
Mas o que é a população? Segundo Moreira e Sene (2005), é o conjunto de
pessoas que residem em determinada área, que pode ser um bairro, um município,
um estado, um país ou até mesmo o planeta como um todo. Ela pode ser
classificada segundo vários aspectos, como: religião, etnia, local de moradia
(urbana ou rural), atividade econômica (ativa ou inativa), faixa etária (jovens
adultos e idosos) e gênero (masculino e feminino). Além disso, as condições de
vida e o comportamento da população são retratados através de indicadores
sociais: taxas de natalidade e mortalidade, expectativa de vida, índices de
analfabetismo, participação na renda etc.
Conhecer as populações quanto ao número e suas condições socioeconômicas
é necessário para implantação de projetos e medidas que atendam à realidade de
uma determinada população. O censo (levantamento periódico do número de pessoas
de um país ou grupo social), ao ser realizado, tem como objetivo conhecer o
número de habitantes, os índices de crescimento vegetativo, índices de
natalidade, índices de mortalidade, qualidade de vida, distribuição de renda
etc., tais informações servem para que os governos realizem os orçamentos
anuais direcionados aos serviços públicos, como educação, saúde,
infra-estrutura, geração de emprego e muitas outras.
Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas), no ano de 2011 a
população mundial atingirá 7 bilhões de habitantes e projeções dizem que esse
número pode atingir a marca dos 9 bilhões até 2050, como pode ser visto na
figura abaixo:

Cerca de 75% da população vivem em nações menos desenvolvidas) e com
menos de 2 dólares por dia. A distribuição desta população, porém, sempre foi
muito irregular ao longo de milhares de anos: os lugares anecúmenos
permaneceram praticamente desabitados; por outro lado, os lugares ecúmenos
ficaram superpovoados e passaram a ser chamados por alguns pesquisadores de
formigueiros humanos.
Crescimento Populacional
Desde a Antiguidade, o crescimento populacional é tema de reflexão para
muitos estudiosos que se preocupam com o equilíbrio entre a organização da
sociedade, a dinâmica demográfica e a exploração dos recursos naturais. Desde
as primeiras contagens da população mundial, sempre foi registrado um aumento
desta por diversos fatores. Ora se registravam aumentos mais consideráveis, ora
aumentos mais moderados, estes causados por grandes guerras ou alastramento de
doenças muito graves, por exemplo. Em diversos países europeus, o advento da
Revolução Industrial foi acompanhado por um incremento demográfico sem
precedentes históricos, sendo registrado um crescimento vegetativo da população
do continente atingindo o seu ponto máximo: entre 1,0 e 1,5% ao ano.
O número de pessoas espalhadas pelo planeta e a quantidade de comida
disponível para alimentá-las começou a ser motivo de preocupação em diversos
países. Na China, há mais de mil anos, textos apontavam as vantagens do que era
considerada a quantidade ideal de pessoas para manter um hipotético equilíbrio
entre a disponibilidade de terras e a população local, indicando que o governo
deveria incentivar as migrações de zonas muito povoadas para outras com menor
densidade de ocupação. Pesquisadores advertiram que não seria possível aumentar
as áreas de cultivo na mesma velocidade do crescimento populacional, o que
tenderia a aumentar os níveis de pobreza e a escassez de alimentos ao longo das
sucessivas gerações (MOREIRA & SENE, 2005).
Somente a partir do século XVIII, com o desenvolvimento do capitalismo,
o crescimento populacional passou a ser estudado como um fato positivo, uma vez
que, quanto mais pessoas houvesse, mais consumidores também haveria. Com isso,
algumas teorias sobre o aumento da população mundial foram criadas e
discutidas. Aqui falaremos sobre as três principais teorias: malthusiana,
neomalthusiana e reformista.
Teoria de Malthus
Em 1798, o economista inglês Thomas Robert Malthus, formulou a sua
teoria, publicada no “Ensaio sobre a população”, a qual se apoiava basicamente
em dois postulados:
⇒ A população, se não ocorrerem guerras, epidemias,
desastres naturais etc., tenderia a duplicar a cada 25 anos. Ela cresceria em
progressão geométrica (2, 4, 8, 16, 32...) e constituiria um fator variável,
que cresceria sem parar.
⇒ O crescimento da produção de alimentos ocorreria
apenas em progressão aritmética (2, 4, 6, 8, 10...) e possuiria certo limite de
produção, por depender de um fator fixo: a própria extensão territorial dos
continentes. Malthus concluiu que o ritmo de crescimento populacional seria
mais acelerado que o ritmo de crescimento da produção de alimentos. Também
previa que um dia as possibilidades de aumento da área cultivada estariam
esgotadas, tendo como consequência a falta de alimentos para abastecer as
necessidades de consumo da população do planeta. Como era pastor da Igreja
Anglicana, propunha que as pessoas só tivessem filhos se possuíssem terras
cultiváveis para alimentá-los.
Hoje, verificamos que suas previsões não se concretizaram: a população
não duplicou a cada 25 anos, e a produção de alimentos se acelerou graças ao
desenvolvimento tecnológico.
A fome castiga, nos dias de hoje, mais da metade da população mundial,
não por conta do crescimento da população, mas, sim, pela má distribuição da
renda.
Teoria Neomalthusiana
A teoria neomalthusiana foi criada em um contexto histórico da busca dos
países que passaram pelo processo de colonialismo e imperialismo, com o
objetivo de diminuir as desigualdades econômicas do planeta realizadas em seus
territórios. Na década de 1960, no auge do crescimento da população mundial,
foi formulada como uma tentativa de explicar a ocorrência da fome e do atraso
nos países menos desenvolvidos. Ela é defendida por setores da população e dos
governos dos países mais desenvolvidos – e por setores dos países menos
desenvolvidos – com o intuito de se esquivarem das questões econômicas.
Após a Segunda Guerra Mundial, as taxas de mortalidade declinaram nos
países do globo. A difusão de novos medicamentos, a vacinação em massa, o
controle crescente sobre as epidemias (principalmente a difteria, tifo e
malária) chegavam aos países mais pobres com décadas de atraso, diferentemente
dos países ricos. Esse conjunto de inovações no campo da prevenção e da cura de
doenças epidêmicas, que ajudou no controle da mortalidade desses países ficou
conhecido como Revolução Médico-Sanitária.
Segundo essa teoria, países que detivessem altas taxas de natalidade
necessitariam de grandes investimentos sociais em educação e saúde, sobrando
menos recursos para serem investidos nos setores agrícola e industrial, o que
impediria o pleno desenvolvimento das atividades econômicas e,
consequentemente, da melhoria das condições de vida da população. Ainda sobre
esta teoria, quanto maior o número de habitantes de um país, menor será a renda
per capita e a disponibilidade de capital a ser distribuído pelos agentes
econômicos.
Seus defensores passam a propor programas de controle da natalidade nos
países menos desenvolvidos mediante a disseminação de métodos anticoncepcionais
na tentativa de enfrentar problemas socioeconômicos, partindo exclusivamente de
posições contrárias à natalidade, e ainda de acobertar os efeitos danosos dos
baixos salários e das péssimas condições de vida que vigoram nos países
subdesenvolvidos.
Teoria Reformista
Em resposta à teoria neomalthusiana, na mesma época foi criada a teoria
Reformista por representantes dos países subdesenvolvidos, que chegam a uma
conclusão inversa à apresentada pelas duas teorias demográficas mencionadas
anteriormente.
Altas taxas de natalidade registradas em alguns países não é a causa e
sim a consequência do subdesenvolvimento. Países mais desenvolvidos tiveram um
controle da natalidade de maneira simultânea à melhoria da qualidade de vida da
população, além da medida em que foram se alterando os modos e os projetos de
vidas das famílias, as quais, em geral, passaram a ter menos filhos ao longo do
século XX.
Nos países menos desenvolvidos, isso só se tornou um empecilho porque
não foram realizados investimentos sociais, principalmente em educação e
saúde. Com isso, foi gerado um imenso contingente de mão-de-obra sem
qualificação necessária para ingressar no mercado de trabalho, tendendo a
empobrecer enormes parcelas da população desses países. Para os defensores
desta teoria, a tendência do controle espontâneo da natalidade é facilmente
verificada nas características das famílias brasileiras de classe baixa e
classe média, que, à medida que se obtêm melhores condições de vida, tendem a
ter menos filhos. Observando que se não tiverem renda suficiente para sustentar
os filhos, com todos os gastos que eles levam, qual o motivo de terem mais
filhos? Por analisar os problemas econômicos, sociais e demográficos de forma
objetiva, partindo de situações reais do cotidiano das pessoas, esta teoria
torna-se mais realista nos dias atuais.
Transição Demográfica
Então, podemos observar que os malthusianos e os neomalthusianos tinham
como preocupação central o crescimento excessivo da população mundial definida
como explosão demográfica por eles. Porém essas teses foram contestadas e
comprovadas sua contestações, por não tratarem de situações reais do cotidiano
das pessoas. O que ocorreu (e ainda ocorre) na realidade mundial é o que se chama
de transição demográfica.
A transição demográfica se refere à transição entre
duas situações de crescimento demográfico relativamente reduzido. O período
pré-transicional, conhecido como regime demográfico tradicional, se define por
uma alta taxa de mortalidade (causada por crises periódicas de fome e por
grandes epidemias) e por uma taxa de natalidade também elevada. Na primeira
fase da transição demográfica, ocorre a redução das taxas de mortalidade, e
registra-se um elevado crescimento vegetativo da população. A segunda fase
caracteriza-se pela redução das taxas de natalidade e, consequentemente, do
crescimento vegetativo. A terceira fase, ou seja, o período pós-transicional,
conhecido como regime demográfico moderno, se define por baixas taxas de mortalidade
e de natalidade (MAGNOLI & ARAÚJO, 2005). A transição demográfica é
ilustrada na figura abaixo:

Indicadores Demográficos
Quando nos referimos à população, temos que levar em consideração
conceitos que são utilizados para expressar as diversas características da
população espalhada pelo globo, os indicadores demográficos. A exemplo disso
seguem alguns conceitos básicos que são utilizados nos estudos
populacionais:
População Absoluta – corresponde ao número total de habitantes
de um determinado local. As regiões ou países que registram números elevados de
população absoluta classificam-se como sendo populosos.
População Relativa (Densidade Demográfica) – indica a relação entre a população absoluta
e a área territorial (km²) que ela ocupa. Este índice demonstra uma média da
distribuição da população no espaço e não exatamente como se processa a
distribuição, pois, em cada região ou país, encontraremos áreas mais ou menos
densamente povoadas. Pode ser expressa pela seguinte relação:

A diferença entre os países é indicativa da desigualdade na distribuição
da população no planeta. Existem países densamente povoados, apesar de
possuírem uma pequena população absoluta, e países com fraca densidade
populacional, mesmo possuindo uma significativa população absoluta.
Taxa de Natalidade – é a relação entre o número de nascimentos
ocorridos em um ano e o número de habitantes. Obtemos essa taxa, tomando os
nascimentos ocorridos durante um ano, multiplicando-se por 1000 e dividindo o
resultado pela população absoluta, ou seja:

Taxa de Mortalidade – é a relação entre o número de óbitos
ocorridos em um ano e o número de habitantes. Obtemos essa taxa, tomando os
óbitos ocorridos durante um ano, multiplicando-os por 1000 e dividindo o
resultado pela população absoluta, ou seja:

Taxa de Mortalidade Infantil – expressa a proporção entre o número de
crianças que morrem antes de completar 01 ano de vida e o total das crianças
que nasceram em uma determinada população (MAGNOLI & ARAÚJO, 2005).
Crescimento Vegetativo – podendo também ser chamado de crescimento
natural, é a diferença entre as taxas de natalidade e as taxas de mortalidade
vigentes durante certo período em uma determinada população; a diferença
positiva ilustra que o número de nascimentos é maior que o número de mortes; a
diferença negativa demosnstra o número de nascimentos menor que o número de
mortes; e nulo quando o número de nascimentos é igual ao de mortes. Quanto
maior a diferença, maior é o crescimento natural da população (MAGNOLI &
ARAÚJO, 2005).
Taxa de Fecundidade – indica o número médio de filhos que uma
mulher teria ao final de sua idade reprodutiva. A taxa de fecundidade igual a
2,1 é considerada a taxa de reposição, isto é, em uma situação na qual as
mulheres têm, em média, 2,1 filhos ao longo de sua vida, o tamanho da população
se mantém estável (MAGNOLI & ARAÚJO, 2005).
Expectativa de Vida – é o número médio de anos que um grupo de
indivíduos nascidos no mesmo ano pode esperar viver, se mantidas, desde o seu
nascimento, as taxas de mortalidade estudadas no ano de observação. É calculada
considerando-se, além das taxas de mortalidade geral e infantil, segundo a
renda, o acesso a serviços de saúde, saneamento, educação, cultura e lazer, bem
como os índices de violência, criminalidade e poluição do local onde vive a
população. Segundo pesquisa realizada e divulgada pelo IBGE em 2009, a
expectativa do brasileiro ao nascer passou de 72,8 anos para 73,17 anos, um
crescimento de três meses e 22 dias (0,31 anos). No período entre 1980 e 2009, a
alta foi de 10,6 anos (10 anos, 7 meses e 6 dias). (IBGE, 2011)
Estes indicadores demográficos são vistos como indicadores de qualidade
de vida de um país, região ou localidade. Podem também ser utilizados para
aferir o retorno de investimentos feitos pelos governos ou por empresas
privadas na melhoria das condições de vida da população, como na educação,
saúde, segurança etc, e para compor vários índices, tais como o Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH).
Atualmente, o que se verifica na média mundial é uma
queda dos índices de natalidade e mortalidade, embora em alguns países as taxas
ainda se mantenham muito elevadas. Essa queda está relacionada principalmente
ao êxodo rural e suas consequências no comportamento demográfico, como: maior
custo para criar os filhos, o acesso mais facilitado aos métodos
anticoncepcionais, o trabalho feminino extradomiciliar, aborto, acesso à
assistência médica, saneamento básico e programas de vacinação (MAGNOLI
& ARAÚJO, 2005)
Estrutura Geral da População.
O estudo da estrutura da população pode ser dividido em três categorias:
número, sexo e idade dos habitantes – esses dados, obtidos pelo censo
demográfico, são expressos em um gráfico chamado pirâmide de idades ou pirâmide
etária; distribuição da população economicamente ativa (PEA) por setores
econômicos: primário, secundário e terciário; e a distribuição de renda.
População Economicamente Ativa
Para representar o número de habitantes e sua distribuição por sexo e
grupos de idade, utiliza-se a pirâmide etária ou das idades. As características
das pirâmides etárias variam de acordo com as condições do país e as
características de sua população, consistindo na divisão do mundo em países
desenvolvidos e subdesenvolvidos, cujas pirâmides etárias apresentam,
respectivamente, o seguinte aspecto padrão:
⇒ Pirâmide 1: país subdesenvolvido, onde se nota
alta taxa de natalidade – comprovada pela base larga – e modesta expectativa de
vida, evidenciada pelo topo mais estreito.
⇒ Pirâmide 2: país desenvolvido, onde se nota baixa
taxa de natalidade – o que explica a base estreita da pirâmide – e elevada
expectativa de vida, comprovada pelo topo mais largo.

Além dessas características, quando observamos uma pirâmide etária, é
necessário termos em mente, ainda, o contexto histórico da população
recenseada, para que se conheça a causa de alguma configuração incomum no
gráfico.
A PEA (População Economicamente Ativa) nos Três
Setores da Economia
Sabemos que o perfil da economia dos países desenvolvidos difere muito
daquele encontrado no mundo menos desenvolvido. No primeiro grupo de países, os
setores primários (atividades agrícolas, de garimpo, pesca artesanal) e
secundários (indústria e de construção civil) da economia tendem a empregar
cada vez menos trabalhadores em decorrência da elevada automação que, somada à
mecanização da agricultura e à sofisticação do padrão de produção da indústria,
deu origem à sociedade pós-industrial, onde também temos trabalhadores do setor
terciário da economia (atividade comercial – formal e informal –, de serviços e
de pesquisa). Por sua vez, nos países menos desenvolvidos, a mecanização do
campo ainda não está completa, ao mesmo tempo em que a indústria apresenta um
patamar tecnológico inferior àquele encontrado na atividade industrial dos
países desenvolvidos. Consequentemente, esses dois setores da economia ainda
tendem a gerar mais emprego.
Tradicionalmente, é comum classificar as atividades primárias como
rurais e as secundárias e terciárias como urbanas. Hoje em dia, porém, graças à
modernização dos sistemas de transportes e de comunicações, verificada em
extensas áreas do planeta, ampliaram-se as possibilidades de industrialização e
a oferta de serviços no campo. Por exemplo, nas modernas agroindústrias, as
atividades industriais e de serviços empregam mais pessoas do que as atividades
agrícolas (primárias).
Devido à crescente imbricação das atividades econômicas, as estatísticas
que mostram a distribuição da população economicamente ativa (PEA) nos três
setores da economia primário, secundário e terciário), ainda muito utilizados,
já não dão conta da complexidade da realidade atual, fato materializado nos
complexos agroindustriais e em muitos setores industriais.
Distribuição da PEA em países selecionados - 2002:

As condições econômicas refletidas na distribuição da mão-de-obra por
atividade econômica, salvo em casos excepcionais, como em áreas desérticas ou
montanhosas, devem ser analisadas sempre tendo como base a agropecuária. A
participação da PEA em atividades industriais não reflete a produtividade e o
tipo de indústria recenseada. Por exemplo, sabendo que 20% ou 30% da população
trabalham em indústrias, não sabemos se esse percentual produz computadores ou
chinelos. Mas, se as atividades agrícolas apresentam alta produtividade,
podemos concluir que a indústria do país, caso seja industrializado, é
predominantemente moderna, já que é ela que provavelmente fornece os adubos, os
fertilizantes, os sistemas de irrigação e as máquinas utilizadas no campo.
(MOREIRA & SENE, 2005)
Distribuição da Renda
A análise da distribuição da renda também se faz necessária no estudo da
estrutura da população e de suas possibilidades de aplicação ao planejamento,
tanto governamental quanto privado. Se o planejamento governamental não
considerar a distribuição de renda nacional, suas políticas de educação, saúde,
habitação, transporte, abastecimento, lazer etc. estarão condenadas ao
fracasso. Assim como da parte da iniciativa privada, o planejamento de
atendimento às demandas do mercado tem, necessariamente, de levar em conta o
poder aquisitivo da população.
A análise dos indicadores de distribuição mostra que, nos países
subdesenvolvidos e em alguns emergentes (termo geralmente usado para descrever
um país que possui um padrão de vida entre baixo e médio, uma base industrial
em desenvolvimento e um Índice de Desenvolvimento Humano – IDH – variando entre
médio e elevado), no caso do Brasil, há grande concentração da renda nacional
em mãos de pequena parcela da população, enquanto, nos desenvolvidos, a riqueza
nacional está mais bem distribuída.
Isso é causado por conta, além dos baixos salários que vigoram no mundo
subdesenvolvido, da dificuldade de acesso a qualquer tipo de propriedade rural
ou urbana. Há basicamente dois fatores que explicam a concentração de renda: o
sistema tributário e a inflação, esta nunca repassada integralmente aos
salários. Se os preços das mercadorias subirem sem que esse índice seja
repassado aos salários, aumenta a taxa de lucro dos empresários e diminui o
poder aquisitivo dos assalariados, com o consequente processo de concentração
de renda.
O sistema tributário constitui o modo como são arrecadados os impostos
em um país, além de ser um poderoso mecanismo de distribuição de renda,
principalmente na forma de serviços públicos. Os impostos podem ser diretos
(aquele que recai diretamente sobre a renda ou sobre a propriedade dos
cidadãos, a exemplo do Imposto de Renda arrecadado pelo governo todos os anos
de acordo com os salários das pessoas – quem ganha mais paga mais e vice-versa)
ou indiretos (estão incluídos no preço das mercadorias e dos serviços que a
população utiliza em seu cotidiano, independentemente da sua faixa de renda).
Em muitos países subdesenvolvidos, a carga de impostos indiretos é elevada,
enquanto nos países desenvolvidos o maior volume de recursos arrecadados pelo
governo local recai sobre os impostos diretos (MOREIRA & SENE, 2005).
O Principal Movimento Populacional
O deslocamento de pessoas entre países, regiões, cidades etc. é um
fenômeno antigo, amplo e complexo, pois envolvem as mais variadas classes
sociais, culturais e religiões. Os motivos que levam as pessoas a tais
deslocamentos são diversos e apresentam consequências positivas e negativas,
dependendo das condições e dos diferentes contextos socioeconômicos, culturais
e ambientais em que ocorrem. Existem diferentes causas, como: religiosas,
naturais, político-ideológicas, guerras, entre outras, mas verifica-se ao longo
da história que predominam os motivos de ordem econômica para as migrações. Nas
áreas de repulsão populacional, observam-se crescente desemprego, subemprego e
baixos salários ou rendimentos, enquanto nas áreas de atração populacional,
vislumbram-se melhores perspectivas de emprego e salário.
Há diferentes tipos de migrações: voluntária, quando o movimento é
livre; forçada, em casos de escravidão e de perseguição política, étnica ou
religiosa; e a controlada, quando o Estado controla a entrada e/ou a saída de
migrantes.
Qualquer deslocamento de pessoas traz consequências demográficas e
culturais. Enquanto se limitam aos aspectos culturais, as consequências
costumam ser positivas, pois acabam ocorrendo uma troca e o enriquecimento dos
diferentes valores postos em contato. Porém, ao acompanharmos os noticiários,
percebemos a face perversa dos atuais movimentos imigratórios. Têm crescido, a
cada ano, os conflitos entre pessoas de diferentes culturas e etnias que
passaram a compartilhar o mesmo território nacional. Em muitos países, os
movimentos neonazistas e separatistas, por exemplo, têm aumentado de modo
considerável, assumindo dimensões críticas principalmente na Europa.
Existem dois principais tipos de migrações: as migrações externas que
ocorrem de um país para outro; e as migrações internas, realizadas em uma mesma
região ou país. As principais migrações internas são:
⇒ Nomadismo: movimento relacionado a
fatores históricoculturais, caracterizado pela inexistência de moradia fixa e
pelo deslocamento permanente ou periódico da população. Os melhores exemplos
podem ser encontrados em regiões do deserto do Saara (África), porém diante do
atual processo de modernização tecnológica esses movimentos encontram-se em
fase de desaparecimento.
⇒ Êxodo rural: deslocamento forçado de
populações das áreas rurais para áreas urbanas, sendo caracterizado pelas
dificuldades de sobrevivência no campo em decorrência, principalmente, da
estrutura fundiária moderna e mecanizada.
⇒ Transumância: movimento populacional
sazonal, ou seja, ocorre em determinados períodos do ano e se repete
frequentemente. Em termos mundiais, ocorre em áreas montanhosas, quando os
pastores permanecem durante o inverno nas planícies e vales com os rebanhos e,
no verão, deslocam-se para as áreas mais elevadas. No Brasil, é praticada pela
população do Polígono das Secas (Região Nordeste), que, durante os períodos de
longas secas, deslocam-se para a Zona da Mata.
⇒ Migração Pendular: movimento realizado
diariamente, por exemplo, da periferia ou subúrbios de uma cidade para o centro
ou de cidades-satélites ou municípios de regiões metropolitanas para a
metrópole central, ou ainda por agricultores que residem em pequenas cidades e
trabalham no campo e retornam ao ponto de origem após a jornada de trabalho.
Trata-se de um movimento populacional característico das grandes metrópoles e
de áreas que promoveram modernizações no sistema de transportes.
Dinâmica Demográfica Brasileira
A sociedade brasileira passou, e ainda passa, por um processo de
miscigenação desde os primeiros séculos de sua história. Índios já presentes,
negros de origem africana e brancos europeus (portugueses, a princípio) formam
a “árvore genealógica” sobre a qual nasceu grande parte dos inúmeros traços
culturais da sociedade brasileira, como religião, idioma, culinária,
vestimentas, datas comemorativas, folclore etc.
Todavia, o encontro entre os povos indígenas, europeus e africanos não
ocorreu de forma harmoniosa. A interferência da sociedade europeia na cultura
indígena dizimou grupos inteiros que haviam se constituído há milhares de anos
antes deles chegarem. O contato com os povos trazidos à força da África foi
também marcado pela brutalidade e pela violência. Somente a partir da segunda
metade do século XIX, novos grupos de outras etnias passaram a fazer parte da
composição da população brasileira. Novos grupos de europeus chegaram ao
Brasil. Eles fugiam da miséria em que viviam na Europa e ao mesmo tempo eram
atraídos pela possibilidade de trabalho e de uma vida melhor, principalmente
quando o Brasil ingressou no ciclo do café, o que impulsionou as exportações do
país. Dentre esses grupos, vieram italianos, espanhóis, alemães e mais
portugueses.
No final do século XIX e no início do século XX, pessoas vieram de
diversas regiões do mundo, emigrando para o território brasileiro. Vieram
sírios e libaneses, do Oriente Médio, e grandes grupos de japoneses, vindos do
Extremo Oriente. E depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil continuou a ser
receptor de muitos imigrantes, porém, na última década, esse movimento
populacional vem se invertendo, com muitos brasileiros escolhendo sair do seu
país como alternativa aos graves problemas econômicos vividos nos últimos
tempos.
Os principais destinos têm sido os Estados Unidos, a Europa e o Japão.
Até a década de 1920, as altas taxas de natalidade e de mortalidade
registradas no Brasil mantiveram o índice de crescimento natural relativamente
constante e não muito elevado.
A mortalidade estava diretamente ligada às precárias condições
médico-sanitárias existentes na época, tanto nas zonas rurais quanto nos meios
urbanos, tendo remédios e vacinas escassos e os sistemas de água encanada e
esgoto servindo a pequenas parcelas da população das cidades. Porém, a partir
das décadas de 1930 e 1940, o Estado começou a combater as doenças existentes,
pondo em prática os planos de saúde, como os de saneamento urbano, ampliação da
infra-estrutura urbana básica (água encanada, esgoto, coleta de lixo, etc.)
além das melhorias nos serviços de assistência médica.
A partir das décadas de 1950 e 1960, essas ações resultaram na drástica
diminuição das taxas de mortalidade e, consequentemente, num maior incremento
populacional, assim como em vários países subdesenvolvidos na época. Com tudo
isso acontecendo, teve início a então chamada explosão demográfica, fenômeno
marcado pelo alarmante crescimento da nossa população.
Desde a década de 1970, porém, a população brasileira passou a crescer
em ritmos cada vez mais lentos. A diminuição do crescimento vegetativo,
registrada nas últimas décadas, é resultado direto da queda da taxa de
fecundidade que vem ocorrendo em todas as regiões do país, ainda que em
compassos diferentes. Nos anos 1960, cada brasileira tinha, em média, seis
filhos; atualmente, o número de filhos por mulher gira em torno de 2,2.
Projeções recentes realizadas pelo IBGE indicam que a população do país,
composta atualmente por, aproximadamente, 190 milhões de pessoas no ano de
2010, deverá atingir 260 milhões em 2050, e então deve começar a diminuir. A
transição demográfica brasileira está em vias de se completar.

As Migrações Brasileiras.
Analisando-se a história brasileira, iremos perceber que as migrações
estão associadas, em predominância, a fatores econômicos desde o tempo da colonização.
Com o fim do ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste, iniciou-se o ciclo do
ouro em Minas Gerais, o que ocasionou um enorme deslocamento de pessoas e um
intenso processo de urbanização, para aquele que se tornaria o novo centro
econômico do país. Mais tarde, com a ascensão do ciclo do café e com o processo
de industrialização, o eixo Rio-São Paulo se tornou o grande polo de atração de
imigrantes, que saíam de sua região de origem em busca de emprego ou de
melhores salários. Somente a partir da década de 1970, com o processo de
desconcentração da atividade industrial e com a criação de políticas públicas
de incentivo à ocupação das regiões Norte e Centro-Oeste, a migração em direção
ao Sudeste começou a apresentar significativa queda.
Em 1920, apenas 10% da população brasileira viviam em cidades. Em 1970,
esse número já era de 55,9%. De acordo com o último Censo 2010, 84,4% da
população brasileira é urbana. Estima-se que, entre 1950 e 2010, mais de 50
milhões de habitantes migraram do campo paras as cidades, fenômeno conhecido
como êxodo rural, por consequência de uma política agrária que modernizou o
trabalho no campo e concentrou a posse das terras. Este processo, associado a
uma industrialização que permanecia concentrada nas principais regiões metropolitanas,
foi responsável pela transformação de áreas atrativas de população.
No entanto, as cidades receptoras desse enorme contingente populacional
não obtiveram investimentos públicos suficientes em obras de infra-estrutura
urbana, passaram a crescer espontaneamente, por meio da construção acelerada de
submoradias e loteamentos (em sua maioria, irregulares) em suas periferias,
sobretudo ao redor de bairros industriais. Esse processo reduziu os vazios
demográficos que existiam entre as cidades e levou à formação das regiões
metropolitanas (abordadas mais profundamente no capítulo sobre Urbanização),
nas quais ocorre um deslocamento diário da população entre os municípios,
movimento conhecido como migração pendular.
No entanto, o que ocorreu no Brasil, entre os anos 1940 e 1990, foi que
as cidades não apresentavam uma oferta de empregos compatível com a procura,
nem a economia urbana crescia na mesma velocidade que a migração. Em
consequência, o desemprego crescia acompanhado do subemprego no setor de serviços,
com aumento do número de trabalha dores informais, vendedores ambulantes e
trabalhadores que vivem de fazer “bicos”.
Atualmente, nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro já se registra
uma maior saída de população das metrópoles em direção às cidades médias do
interior do que em direção a estas metrópoles, embora estas continuem tendo
crescimento populacional total positivo. A principal causa desse movimento é
que estas metrópoles atualmente não apresentam taxas de crescimento econômico
tão significativas, a infra-estrutura de transportes é geralmente problemática,
acompanhada de uma relativa precariedade no atendimento de praticamente todos
os serviços públicos, com índices de desemprego e criminalidade mais elevados
do que a média das demais cidades. Já as cidades do interior do país,
além de estarem passando por um período de crescimento econômico, oferecem
melhor qualidade de vida à população.
As migrações internas servem para análise, não apenas como resultantes
de eventuais desequilíbrios econômicos, sociais ou demográficos, mas,
principalmente, como elementos da organização espacial de uma sociedade. Não é
diferente no Brasil, onde atualmente a maior parte das migrações não são mais
inter-regionais, como ocorriam em décadas passadas, mas ocorrem dentro da mesma
região.
Além disso, no caso do crescimento das cidades médias do interior,
verifica-se um rechaço do fluxo Nordeste-Sudeste, ou seja, boa parte dos
migrantes continua dirigindo-se aos grandes centros urbanos, como São Paulo,
Rio e Belo Horizonte, mas, em seguida, são rechaçados para o interior, buscando
regiões como Ribeirão Preto, Triângulo Mineiro e outras, para onde muitas
indústrias também estão se mudando. Por outro lado, um número considerável
dessas cidades médias passou a ser o local de destino para aqueles que, ao
deixarem o campo, evitam as capitais devido, sobretudo, às notícias de
desemprego e de violência. Vale citar os casos de Londrina (PR), Caxias do Sul
(RS), Campina Grande (PB), Feira de Santana (BA), Caruaru (PE), como novos
polos de atração populacional.
O crescimento das áreas litorâneas, por sua vez, deve-se especialmente
ao incremento do turismo em regiões como Porto Seguro (BA), litoral fluminense
e litoral paulista, como também o litoral dos estados nordestinos. O turismo
abriu um número considerável de postos de trabalho no campo dos serviços em
geral, o que se torna fator de grande atração para os migrantes. Além disso, a
presença de turistas amplia o chamado mercado informal, atraindo grande número
de “trabalhadores autônomos” ou vendedores ambulantes.
Por fim, o crescimento do Centro-Oeste, com destaque para o Distrito
Federal e seu entorno, e para a capital de Tocantins, explica-se pelo
inchamento da chamada fronteira intensiva. A esperança de um terreno na periferia
onde construir a casa própria não deve ser descartada. A política de doação de
lotes, praticada pelo governo atual do DF, apenas organiza os focos de miséria
que surgem no Distrito Federal.
Palmas, como capital de um novo estado, também tem sido local de destino
de muita gente. A construção civil, o setor de serviços e o mercado informal
absorvem parte do contingente que aí busca vida melhor.
Fluxo das Migrações Internas no Brasil



Estrutura Etária do Brasil
As mudanças ocorridas no Brasil nas últimas décadas com relação ao
comportamento demográfico têm alterado também as características da estrutura
etária da nossa população. Na figura abaixo, podemos visualizar a evolução da
estrutura etária brasileira nas últimas décadas.

Como pode ser visto nas pirâmides etárias, a estrutura etária da
população brasileira está em rápida mutação. Com a queda das taxas de
natalidade e de mortalidade, acompanhada do aumento da expectativa de vida, a
pirâmide etária nacional vem apresentando um significativo estreitamento em sua
base, que corresponde aos jovens, e um alargamento de meio para o topo, por
causa do aumento da participação percentual de adultos e idosos.
Quanto à distribuição da população brasileira por gênero (homens e
mulheres), o país se enquadra nos padrões mundiais: nascem cerca de 106 homens
para cada 100 mulheres; no entanto a taxa de mortalidade masculina é superior e
a expectativa de vida menor. Portanto, embora nasçam mais homens que mulheres,
é comum as pirâmides apresentarem uma parcela maior da população
feminina.
Segundo o IBGE, em 2010 o Brasil tinha 93.403.990 milhões de homens
(48,96%) e 97.348.809 milhões de mulheres (51,04%).
CENSO DEMOGRÁFICO 2010
Os censos demográficos produzem informações que permitem conhecer a
distribuição territorial e as principais características das pessoas e dos
domicílios, acompanhar sua evolução ao longo do tempo, e planejar adequadamente
o uso sustentável dos recursos, sendo imprescindíveis para a definição de
políticas públicas e a tomada de decisões de investimento, sejam eles
provenientes da iniciativa privada ou de qualquer nível de governo. Constituem
a única fonte de referência sobre a situação de vida da população nos
municípios e em seus recortes internos – distritos, bairros e localidades, rurais
ou urbanos – cujas realidades socioeconômicas dependem dos resultados
censitários para serem conhecidas (IBGE, 2011a).
Segundo os resultados do Censo Demográfico 2010, a população do Brasil
alcançou a marca de 190.755.799 habitantes na data de referência. A série de
censos brasileiros mostrou que a população experimentou sucessivos aumentos em
seu contingente, tendo crescido quase 20 vezes desde o primeiro Recenseamento
realizado no Brasil, em 1872, quando foram registradas 9.930.478 pessoas (IBGE,
2011a).

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